Nossa Senhora Aparecida foi arrastada para o centro da campanha presidencial.
Publicações divulgadas nas redes sociais afirmaram que existiria um plano para retirar da santa o título de padroeira do Brasil. A acusação, associada a um candidato e à sua família, espalhou-se rapidamente, provocou indignação entre católicos e alcançou milhões de pessoas.
O projeto citado nas postagens realmente existiu, foi apresentado em 2007 pelo então deputado Professor Victório Galli. O texto pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi rejeitada e arquivada em agosto de 2008.
O Tribunal Superior Eleitoral determinou a retirada de 1.170 links que atribuíam a Flávio Bolsonaro e à sua família a intenção de retomar ou apoiar a proposta. Entretanto, reduzir o episódio a uma disputa entre culpados e inocentes impede a compreensão do problema mais amplo: a transformação da fé em instrumento de poder.
A religião ocupa espaço crescente nos discursos eleitorais. Candidatos participam de cultos, aproximam-se de lideranças religiosas e apresentam seus projetos políticos como missões concedidas por Deus. Expressões como “guerra espiritual”, “resgatar almas” e “Brasil do Senhor Jesus Cristo” deixam de ser apenas manifestações particulares de fé quando são utilizadas em campanhas para conquistar votos e dividir a sociedade entre representantes do bem e inimigos da nação.
Esse ambiente ajuda a explicar por que a história sobre Nossa Senhora Aparecida encontrou tanta receptividade. O receio de que uma religião possa ser colocada acima das demais não surgiu por acaso. Ele é alimentado sempre que políticos prometem entregar simbolicamente o país a uma única crença ou tratam a vitória eleitoral como confirmação da vontade divina.
O Estado laico não é contrário à fé. Ele existe justamente para garantir que nenhuma religião seja perseguida e que nenhuma igreja controle o poder público.
O Brasil é formado por católicos, evangélicos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, seguidores de tradições indígenas, judeus, muçulmanos e pessoas sem religião. O governo deve representar todos esses cidadãos, e não apenas aqueles que compartilham a crença do candidato eleito.
Entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias de intolerância religiosa no país. Os dados mostram impacto desproporcional sobre as religiões de matriz africana, historicamente tratadas com preconceito, perseguição e violência.
O episódio envolvendo Nossa Senhora Aparecida revela um perigo. O uso permanente da religião como instrumento de campanha, criando o ambiente no qual essas mentiras parecem passíveis.
Não é preciso esconder a critica aos candidatos que transformam púlpitos em palanques. Também não é necessário escolher entre combater a desinformação e denunciar a exploração eleitoral da fé. As duas coisas podem — e devem — ser feitas ao mesmo tempo.
Nossa Senhora Aparecida continua sendo oficialmente a padroeira do Brasil. A fé pode orientar valores pessoais, inspirar solidariedade e fortalecer comunidades. O que ela não pode é funcionar como certificado de honestidade para políticos, justificativa divina para projetos de poder ou arma contra quem acredita de maneira diferente.
Fontes: Câmara dos Deputados, Tribunal Superior Eleitoral e Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
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